As pessoas são como elas são. Isso independe do que você pensa delas e de como você gostaria que elas fossem. Eu, por exemplo, adoraria que Amy Winehouse fosse uma pessoa centrada, focada na carreira, sóbria e lúcida o suficiente para fazer shows impecáveis. Mas isso é problema meu, não dela, porque ela simplesmente não é assim e sequer sabe que eu existo. Amy é como ela é, não como eu gostaria que ela fosse ou como eu acho que ela poderia ser. Sim, ela é uma compositora original, intérprete superinteressante, dona de uma voz incrível e de um estilo marcante e autêntico. Mas ela também é alcoólatra, anoréxica, bulímica, bipolar, desconfortável com o sucesso, insegura, desequilibrada, autodestrutiva e usuária compulsiva de maconha, cocaína, heroína e crack. Nesse contexto, o show que ela fez nesta terça-feira (11/1) na Arena HSBC do Rio de Janeiro foi o melhor possível.
Sim, Amy não mostrou qualquer domínio de palco. Mas ela não tem nem domínio sobre si mesma!
Sim, Amy muitas vezes atravessava o ritmo, mas isso sempre fez parte do seu estilo de interpretação ao vivo.
Sim, Amy errou a entrada de algumas músicas, mas isso não destoa em nada de sua personalidade e foi proposital em certos momentos, porque shows de soul permitem esse tipo de coisa, o que é sempre uma oportunidade para a banda mostrar sua competência.
Sim, Amy esqueceu trechos de algumas letras, mas isso não é nada para alguém nas precárias condições físicas e psíquicas dela.
Sim, o show durou “apenas” 1h20, mas teve quase 20 músicas – razoável para uma artista que só lançou dois discos – e estava perfeitamente estruturado em início, meio, apresentação da banda, fim e bis.
De resto, dentro de seus limites, Amy falou com o público, se arriscou uma vez no português, cumprimentou a plateia, dançou rapidamente, sorriu moderadamente e se despediu com sua falta de jeito peculiar. Estes são detalhes de praxe em qualquer show, mas verdadeiros luxos quando vindos de alguém que não consegue sequer zelar minimamente pela própria vida.
Por tudo isso, ignoro o que muitos críticos do show consideram “problemas”. Para mim, foi uma experiência muito especial ver Amy Winehouse ao vivo, pelo tanto que eu admiro seu talento, ou pelo menos sua parca discografia.
Quando a ouvi pela primeira vez, em janeiro de 2007, ao baixar o álbum Back to Black três meses depois de seu lançamento, fiquei maravilhado. Fora da Inglaterra, ela ainda não era famosa, nem se tinha notícia de seu estilo de vida desregrado, mas as letras e interpretações que ouvi naqueles mp3 já tinham sido suficientes para me fazer crer que aquela era uma grande artista e que ela talvez morresse muito em breve, vítima de seu descontrole. Desde então, eu desejei ouvi-la ao vivo, mas duvidava que isso fosse possível, até porque ela era praticamente desconhecida. Eu tive o prazer de apresentar sua música a alguns amigos, que também se apaixonaram por ela de imediato. Pouquíssimo tempo depois, era quase impossível encontrar alguém que não tivesse ao menos ouvido falar dela. Mas Amy já estava firmemente enraizada no olimpo de minhas preferências musicais quando o furacão passou.
Não foi pela imprensa, mas por ela mesma, através de suas músicas, que eu soube que ela era autodestrutiva, vulgar, descontrolada, triste, difícil, encrenqueira. Portanto, quando me encantei por Amy, ela já era desse jeito. Para mim, a única surpresa do show foi o fato de ela ter vindo. E já que ela veio, tudo mais era previsível. Eu estava ali para viver uma experiência improvável e longamente desejada. Fui sem ilusões e, portanto, voltei sem decepções. E não fui o único a sair de lá plenamente satisfeito, a julgar pela calorosa reação de grande parte da plateia. Amy nunca enganou ninguém, nem conseguiria se quisesse. Quem saiu do show de terça-feira decepcionado provavelmente entrou lá iludido ou desinformado.
Para mim foi um enorme prazer ver de perto aquela figura caricata e autêntica, talentosa e frágil, digna de admiração e pena. Principalmente na primeira parte do show, Amy comprovou seu valor como cantora, compositora e intérprete, dentro do seu possível e fiel a sua personalidade, amplamente conhecidos. As músicas se sucediam com leveza e até alguma sensualidade, incluindo várias joias do álbum Back to Black (“Tears dry on their own”, “Some unholy war”, “Just friends”, “Wake up alone” e a maravilhosa faixa-título), uma versão deliciosa de “Boulevard of broken dreams” (do repertório de Tony Bennett e Nat King Cole), uma faixa de seu primeiro disco (“I heard love is blind”) e a bela “I’m On The Outside (Looking In)” (gravada originalmente por Little Johnny & The Imperials em 1964).
Como previsto, o meio do show foi delimitado por uma ausência temporária e planejada de Amy, que deixou o palco livre para seu backing vocalist Zalon cantar “What’s a man to do” e “The click”, canções que ele gravou com Mark Ronson para um álbum solo. Depois disso, Amy voltou, mas seus pés já se afastavam rapidamente do chão, zonza que estava. A partir daí, o público lhe emprestou vigor para apresentar os hits “Rehab”, “Valerie” e “You know I’m no good”. A grande banda foi apresentada em longa exibição de seus ótimos talentos individuais. E o bis fechou o espetáculo com “Love is a losing game” e “Me and Mr. Jones”.
Mais do que isso seria impossível, assim como é impensável Bono não interagir com a plateia, Madonna não desafinar, Britney não usar playback e Jagger não requebrar. Era Amy Winehouse ali, ora! Todo mundo sabia disso. Ou deveria.
PS: Como curiosidade, segue link para o primeiro texto que escrevi sobre Amy Winehouse, com minhas impressões iniciais sobre o álbum “Back to Black”. É uma crítica escrita em fevereiro de 2007.


























