
Em algum lugar dos EUA, o trânsito está completamente parado. Os motoristas não conseguem avançar nenhum centímetro, e sequer sabem a razão de tamanho engavetamento. Cada automóvel é um pequeno recorte dessa realidade, cada qual com seu motivo para estar ali, com sua origem e seu destino. E dentro de cada carro, cada indivíduo está inserido em seu próprio universo de pensamentos e sentimentos, obrigado a olhar para dentro de si, na impossibilidade de vencer o trânsito.
A nós, espectadores, é permitido ler os pensamentos dessas pessoas, literalmente, através de legendas. Assim sabemos que uma mulher no limite da carência está ávida para ser paquerada por qualquer pessoa; um homem idoso parece pressentir que será deixado pela esposa e sofre muito com isso; um grupo de imigrantes teme perder sua dignidade; alguns apreciam o silêncio; outros, ficam muito incomodados com a situação; um garoto parece estar fugindo de casa; um homem não sabe como resolver um problema que o aflige; e Michael Stipe, vocalista da banda REM, tem em mente a letra de sua canção Everybody hurts. Enquanto isso, um religioso no alto de um viaduto lê o Evangelho enquanto vai jogando suas páginas ao vento.
Michael Stipe é o primeiro a deixar seu carro. Em dado momento, oprimidas pela situação e pelo que passa em seus corações e mentes, todas as pessoas abandonam seus automóveis simultaneamente, tomando a atitude libertadora de sair daquela inércia e levar suas vidas adiante, numa catarse coletiva sem precedentes. Algo tão impensável que vira notícia de jornal.
Assim é Everybody hurts, videoclipe dirigido pelo inglês Jake Scott, filho do cineasta Ridley Scott. Seu currículo inclui também os clipes Disarm (Smashing Pumpkins), Fake plastic trees (Radiohead) e Staring at the Sun (U2), entre outros. A gravação ocorreu na auto-estrada interestadual número 10 (I-10), em San Antonio, Texas, e resultou em um dos videoclipes mais poéticos já feitos, lançado em abril de 1993 para promover o quarto single a ser extraído do álbum Automatic for the people (1992).
Everybody hurts parece ter duas fortes influências cinematográficas. Uma delas é o filme alemão Asas do desejo (1987), de Wim Wenders, em que anjos invisíveis conseguem ler os pensamentos dos humanos. Clique aqui para ver uma cena do filme em que o espectador toma conhecimento do que pensam os passageiros de um vagão do metrô, de modo semelhante ao que acontece no clipe do REM.
Outra influência do cinema parece ter vindo do filme italiano Fellini 8 ½ (1963), de Federico Fellini, especificamente a cena de abertura, em que a câmera passeia pelas janelas dos carros presos num engavetamento, mostrando-nos o universo particular de cada motorista (clique aqui para ver).
Clique aqui para assistir ao videoclipe Everybody hurts, do REM.

