
Semana passada, Lady Gaga lançou o videoclipe Alejandro, uma bobagem cara e pretensiosa que só se tornará clássica se for pelo viés do humor involuntário. O que mais gerou comentários nesse vídeo foi a constatação de que tudo nele já fora visto nos clipes de Madonna, como Vogue, que acaba de completar 20 anos e ainda merece atenção. Tanto que, em abril último, o seriado Glee levou ao ar uma paródia visual que recriava cada detalhe do clipe, com a atriz Jane Lynch – intérprete da personagem Sue Sylvester – no lugar de Madonna.
Vogue também é uma bobagem que mistura antigas referências, mas é bem amarrado por um conceito que une música, dança e vídeo de maneira indissociável. O clipe influenciou imediatamente o mundo da moda, da dança, das pistas e dos próprios videoclipes, tornando-se uma referência nova. Nasceu como um ensaio sobre o poder da imagem e hoje é um belo exemplo disso.
DANÇA: A coreografia criada para Vogue difere do habitual por ser centrada nos braços. Assim foi porque a inspiração era o voguing, estilo de dança originário da cultura gay nova-iorquina, surgido nos anos 80 e que simula poses e ângulos típicos dos ensaios de moda de revistas como a Vogue – daí seu nome. O voguing nasceu na ball culture, cenário gay que, desde os anos 60, reúne, sobretudo, homossexuais negros e latinos para disputar quem desfila melhor em uma passarela imaginária. Tudo isso era muito obscuro e restrito, a subcultura de uma subcultura, até ser reprocessado por Madonna em Vogue e ganhar o mundo de uma outra forma.
IMAGEM: Se a dança remetia às revistas de moda, o vídeo fazia o mesmo, só que Madonna foi beber de fontes mais antigas: a fotografia dos anos 30 e a era de ouro de Hollywood. Vogue procura emular uma estética eternizada no passado por grandes estrelas do cinema, como Jean Harlow, Carole Lombard, Greta Garbo e Marilyn Monroe. Aqui, os signos de glamour e beleza são os mesmos que compunham a linguagem dos fotógrafos Horst P. Horst, Clarence Sinclair Bull, George Hurrell, Ernest Bachrach e Eugene Robert Richee, responsáveis por lendárias fotos de moda e de divulgação de filmes nas décadas de 30 e 40.
MÚSICA: Vogue, a música, trazia para o mainstream o que havia de mais quente nos clubes noturnos de 1990, a house music – com isso, Madonna foi a primeira artista de grande porte a lançar uma faixa de trabalho baseada nesse estilo de música eletrônica. Cerca de dez anos antes, a house music só existia na cena dance alternativa de Chicago; no fim dos anos 80, começou a turbinar as versões remix de sucessos radiofônicos, para só em 1990 se tornar produto de massa pelas mãos de Madonna, em versão mais palatável.
LETRA: A letra da música, por sua vez, exalta o escapismo das pistas de dança, ao mesmo tempo em que cita e reverencia as tais estrelas do passado – Marlene Dietrich, Lauren Bacall, Ginger Rogers, Rita Hayworth, Katherine Hepburn, Grace Kelly etc. O verso “Strike a pose!” – “Faça uma pose!” – é o ponto de interceção entre a música (Vogue), a dança (voguing) e o conceito visual do clipe, baseado em poses clássicas.
Por tudo isso, ainda que seja uma bobagem, Vogue é ao menos uma bobagem consistente, um combo de vídeo, música e coreografia que jogou luz sobre uma subcultura, popularizou um estilo musical alternativo, reviveu os rostos da Hollywood clássica como referências de estilo, ajudou a definir a estética da época com sua fotografia em preto-e-branco e fez um sucesso estrondoso. Também merecem os créditos o produtor Shep Pettibone – co-autor e co-produtor da canção ao lado de Madonna – e o diretor do vídeo, David Fincher, que depois ficaria mais conhecido como cineasta, pelos filmes Clube da luta, Se7en e O curioso caso de Benjamin Button.
Abaixo, esquadrinho algumas das referências utilizadas por Madonna e Fincher no videoclipe:
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A referência visual mais clara de Vogue é a fotografia Mainbocher corset, imagem clássica clicada por Horst P. Horst em 1939.
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Outra foto de Horst P. Horst reverenciada em Vogue é esta de 1946, Carmen face massage.
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Outra citação ao fotógrafo Horst P. Horst está nesta releitura da foto Lisa with turban, de 1940.
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Madonna emula pose clássica da atriz alemã Marlene Dietrich, feita pelo fotógrafo Don English para divulgar o filme O expresso de Shangai em 1932.
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Citação a outra pose de Dietrich no mesmo ensaio de Don English.
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A atriz Jean Harlow (a bombshell original) e o fotógrafo George Hurrell (contratado da MGM dos anos 20 aos 40) também são fortes referências em Vogue. Este momento de Madonna no clipe remete a ambos, como mostra a fotografia de Harlow clicada por Hurrell.
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Outra fotografia de Jean Harlow feita por George Hurrell comprova a influência de ambos.
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Esta outra foto de George Hurrell mostra que até o vestido usado por Madonna em Vogue é similar ao que Jean Harlow trajava em seu clássico ensaio fotográfico. A frente-única branca e o cabelo louro platinado remetem também ao visual de Marilyn Monroe no filme O pecado mora ao lado, dirigido por Billy Wilder em 1955.
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Nesta cena de Vogue, o visual de Madonna presta homenagem à atriz Veronica Lake, cuja marca registrada eram as longas madeixas louras e onduladas jogadas para o lado direito. A imagem também usa um recurso que era muito comum nos anos 30 e 40 em fotos de divulgação de atrizes: o rosto duplicado por uma superfície espelhada, como nesta foto da atriz Sylvia Sydney feita por Eugene Robert Richee.
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Os jogos de sombras, ângulos, composições e alto contraste do fotógrafo Ernest Bachrach também foram fontes de inspiração para Vogue, como mostra esta foto da atriz Carole Lombard feita por ele. Já o figurino e o cabelo de Madonna nesta cena fazem menção a um famoso ensaio fotográfico de Marilyn Monroe.
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Nesta outra cena de Vogue, referências a cenários, poses e figurinos usados no passado pelas atrizes Carole Lombard (ela de novo!) e Katherine Hepburn. A foto desta última, no canto inferior direito, também é do fotógrafo Ernest Eugene Bachrach.
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Ao ver Madonna sendo penteada e maquiada no clipe de Vogue, difícil não lembrar desta foto de – sempre ela! – Marilyn Monroe.
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Greta Garbo, outra forte referência para Madonna em Vogue. A atriz, inclusive, encabeça a lista de estrelas citadas por Madonna na letra da música.
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E agora, com vocês, Vogue, de Madonna, dirigido por David Fincher:
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Veja outros posts da série “Os melhores videoclipes de todos os tempos”:
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E outros posts sobre Madonna de que você pode gostar:

Merecido post!
Escrevi algo sobre também, em 2006: http://migre.me/Pnyf
A qualidade de M está em saber amarrar as ideias. Todas (ou quase todas) as referências que usa, conversam e se harmonizam. Os diálogos que ela promove são sempre enriquecidos com Omega 3.
Abraço!
Mais um ótimo post. Parabéns!
Obrigado, Cly! Volte sempre!
Otimo post, compensou a looonga espera!
So nao gosto do uso da palavra bobagem, se e importante, de bobo nao tem nada.
Sempre otimos posts,
podete mais vezes!
Valeu, Igor! Difícil é encontrar tempo para postar mais…
É, talvez eu não tenha usado bem a palavra “bobagem”…
Eu amo isso aqui demais, acho que ja li todos os posts e sempre AMO quando fala da Madonna.
“A qualidade de M está em saber amarrar as ideias. Todas (ou quase todas) as referências que usa, conversam e se harmonizam. Os diálogos que ela promove são sempre enriquecidos com Omega 3.” ISSO. É EXATAMENTE ISSO.
E algumas pessoas não entendem. Enfim. Continue postando sempre, por favor. :D
Obrigado, Deargryds! Eu só não posto mais por falta de tempo, mas vou me esforçar, prometo.
Ótimo e excelente post que deve ser reverenciado e divulgado em todas as comunidades, sites e blogs que discutem a “genialidade” da Gaga; o Zeca Camargo podia ver isso.
Hahahaha! Boa, Renato!
Eu até gosto da figura da Gaga, e de uns 2 clipes dela, mas não da música.
BELÍSSIMO!!!
Tem gente que não faz monografias de conclusão de curso tão bem feitas quanto esse post. Obrigado, Alexandre!
Uau, Gabriel! Obrigado! É difícil encontrar tempo pra manter o blog, mas são visitantes como você que me motivam a dar um jeito. Você é dos mais fiéis, sempre de olho no que publico. Um abração!
Finalmente alguém além de mim reparou em como a Lady Gaga é full of bullshit! Não sei nem se pode-se chamar o que ela faz de referência, pra mim é tudo uma cópia batida de muita gente boa. Como ninguém mais olha para trás, ou tem o mínimo de educação artística, a Lady gaga se torna inovadora.
Havalina, Lady Gaga ainda não inovou em nada. Até acho interessante a atitude dela, a figura dela, mas é só.
Suas análises dos clipes da Madonna são ótimas! Parabéns!
Obrigado, Danielle! Volte sempre!
Pooooooooooooooxa, demorou, hein?
Mas a qualidade é sempe inalterável!
Adorei este! Freakshowbusineess forever! Sempre completo e que sabe cruzar as referências COMO NINGUÉM MAIS!
U-hu!
Vellinho, obrigado! Eu já estava quase esquecendo o quanto gosto de postar aqui… Vou tentar não sumir muito, viu?
Maravilhosa análise!
Como na minha época os filmes da Seção da Tarde eram todos em preto e branco e sempre com essas divas maravilhosas, claro que já havia notado alguns dos pontos que vc mostrou e ilustrou. Até mesmo algumas das fotos da Vogue. Mas vc como sempre surpreende!
Como vc tb é jornalista da rede Globo, é bem capaz que o Zeca Camargo tenha acesso aos seus escritos… Cá entre nós, sou mais você irmãozinho!
Beijo grande e parabéns.
Márcia, você é muito querida e amada! E eu estava pensando em você ainda agora, tendo recordações boas.
[...] Os melhores videoclipes de todos os tempos: “Vogue”, Madonna [...]
FICO SEM PALAVRAS PRA DEFINIR ESSE TRABALHO LINDO,SO POSSO ME AJOELHAR E AGRADECER,OBRIGADO
Que isso, José… Não precisa tanto. Eu é que agradeço!
Muito b om….Madonna não esta aee a toa…são quase 30 anos no pop como rainha…e Vogue sempre sera lembrado, alem de belissimo é um luxo!…outras ladys e outras cleydes(HEHEEH) irão tentar copiar, mas ela é unica e seus videos tambem!VIVA A RAINHA!
Viva!
Ótimo post, um texto bem feito e respeitando tudo o que Madonna fez e faz. Ainda mais que sou fã dela, de Garbo, Kate Hepburn, Dietrich, Bette… Enquanto isso a “Leidi” avacalha tudo, uma pena.
Meu Deus! Ela ainda conseguia ser mais bonita que todas essas mulheres. Que beleza.
esse videoclip marcou a carreira da MADONNA.
[...] por Alexandre Santos [...]