
A morte de um grande artista é sempre triste, mas relativa. Porque, para a sociedade, sua importância está em sua obra e, em muitos casos, seu pensamento. É seu legado que o faz grande, e este permanece. Assim, sempre teremos Jobim, Tarsila, Machado, Elis, Nelson e todos os outros que fizeram nossa história e nossa identidade, e que seguem nos inspirando, entretendo, deleitando. Ou não?
Eu hoje chorei por um instante, aquele em que me dei conta de que jamais verei novamente um parangolé original de Hélio Oiticica; que precisarei voltar à Tate Modern, em Londres, se quiser rever um bólide autêntico assinado por ele; que agora, enfim, o mundo só dispõe de fotos e vídeos para conhecer a maior parte da obra desse artista, cujo acervo se queimou quase completamente em um incêndio na noite de ontem, na casa de sua família.
Filmes, livros e fotografias são excelentes para preservar a memória de um artista plástico, mas não substituem, nem de longe, a experiência do contato pessoal com seu trabalho. Especialmente no caso de Oiticica, cujas pinturas extrapolam os limites do quadro, criador de peças que só podem ser plenamente apreciadas se vestidas e movimentadas no corpo, autor de obras que proporcionam experiências e dependem da interação do público para fazer sentido.
(Será que eu deveria ter empregado os verbos no passado? Extrapolavam, podiam, dependiam?)
Quanto disso sobreviveu ao incêndio de ontem? E por quanto tempo mais sobreviverá? As primeiras notícias falam na destruição de 2 mil peças de Oiticica, 90% de tudo que ele produziu, US$ 200 milhões em arte. Ainda estão sendo contados os mais frescos cadáveres da cultura brasileira.
E quanto mais perderemos? Lembro de ter visto, em 1997, todo o acervo pessoal do cartunista Henfil amontoado em um empoeirado quartinho de empregada na Tijuca, exposto a toda sorte de incidentes domésticos que podem igualmente destruí-lo. Quantos outros patrimônios nacionais estão guardados de forma inadequada nas residências de seus herdeiros, ou mesmo de colecionadores e ladrões? Como bem escreveu minha amiga Daniela Name em seu blog, que outras importantes obras de arte se encontram agora acondicionadas de qualquer jeito, como fotos de família?
Resta-nos apreciar o legado imaterial de Oiticica, como sua influência nas artes em geral. Mas antes precisamos discutir o que é possível fazer para evitar que outras grandes obras se tornem simples memórias, se tanto.


Oi, Alê.
Ficou linda sua homenagem. Já chorei muito hoje… beijos.
Descaso…
Ainda hoje tive de ler uma “crítica” dizendo que esse acontecimento com as obras do Hélio, era de menor relevência, comparado ao clima de guerra em que o Rio de Janeiro amanheceu ontem.
É por ignorâncias como essa que perdemos acervos insubstituíveis, que amanhecemos no meio do caos, que estamos reféns. Só que enganam-se os que pensam ser, apenas da violência ou da impunidade, somos reféns da falta de educação e cultura, e fundamentalmente da passividade.
Um abraço,
Nina.
Ps. Encontrei teu blog uns dias atrás, gostei de tudo por aqui, uma miscelânea das mais apuradas. Hoje resolvi deixar pegadas.
Nina, concordo contigo. No Jornal Nacional deste sábado, achei curioso e triste que a notícia de maior destaque fosse a guerra do tráfico no Rio de Janeiro, quando na verdade a perda da obra de Hélio Oiticica é algo irremediável e de peso nacional.
Fico feliz por ter gostado do blog. Volte sempre!
Morremos um pouco hj. A arte do Brasil em Luto. :’(
acho muito legal as obras do hélio oiticica eu ja vi as obras dele num museu de artes la em São Paulo fui com minha escola felipe Cantuso
ital cutura