Eu queria escrever um texto em homenagem a Paulo Autran, mas minhas palavras teriam a frieza de quem jamais o viu no palco. Eu poderia exibir tudo que sei ou que viesse a pesquisar a seu respeito, mas… E daí?
Assisti a Paulo Autran somente no filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, e nas novelas “Guerra dos Sexos” e “Sassaricando”, ambas de Silvio de Abreu. No entanto, como tenho 32 anos, é claro que sua efêmera fase novelística foi a única que eu acompanhei de perto e na época original. Justamente o detalhe que menos importa em sua carreira, talvez a forma de dramaturgia que lhe deu menos prazer.
O jeito foi pôr a memória para pinçar o que guardei dos trabalhos televisivos de Paulo Autran. E é claro que a lembrança mais forte foi aquela antológica cena de “Guerra dos Sexos” em que ele e Fernanda Montenegro atiravam comida um no outro à mesa do café da manhã, talvez por essa imagem já ter sido reprisada diversas vezes. Puro pastelão, do tipo que detesto hoje em dia, mas que provavelmente me fez gargalhar aos 8 anos, quando a cena foi exibida pela primeira vez. Daí, me perguntei: o que havia de tão bom nessa cena para que ela se eternizasse? O que há de mais em duas pessoas fazendo guerra de comida, algo tão antigo em comédia? Entrei no YouTube para rever a cena. E entendi.
A cena, em si, não tem nada de mais mesmo. Mas quem está ali atirando leite, geléia, suco de laranja e patê um no outro são Paulo Autran e Fernanda Montenegro, que já eram profissionais de terceira idade e meia idade, respectivamente, e considerados os maiores atores do Brasil. Eles dão uma dignidade impressionante àquele pastelão. Eles dão alto valor à comédia mais banal. E o pastelão, por sua vez, também os dignifica, porque, ao jogar comida um no outro numa novela das sete, eles poderiam ter chamuscado suas carreiras, irretocáveis, mas, ao contrário, reafirmaram suas condições de maiores ator e atriz do Brasil.
Rever a cena também fez com que eu me desse conta de uma outra coisa: nos anos 1980, as novelas das sete serviam de palco para os maiores atores de diversas gerações. Claro que havia os galãs sem talento e as gostosas sem cultura que iam parar na Playboy. Mas tínhamos uma novela protagonizada por Paulo Autran e Fernanda Montenegro! Tínhamos atores egressos dos históricos Teatro Brasileiro de Comédia e Teatro de Arena protagonizando comédias no início das noites da TV Globo, e eles já nem eram jovens.
Os atores principais de “Brega & Chique” eram Marília Pêra, Raul Cortez, Marco Nanini e Glória Menezes. “Sassaricando” era encabeçada por um quadrilátero amoroso formado por Paulo Autran, Tônia Carrero, Irene Ravache e Eva Wilma, coadjuvados pela revelação Diogo Vilela. Tereza Rachel era o grande nome de “Que Rei Sou Eu?”, que tinha Antônio Abujamra como vilão, Giulia Gam como mocinha e Stênio Garcia inesquecível como Corcoran. A dulpa Dina Sfat e Ary Fontoura roubou a cena em “Bebê a Bordo”, com seus improvisos que faziam a realidade invadir a ficção para fazer rir. Um trio de velhinhos formado por Paulo Gracindo, Ary Fontoura e Cláudio Corrêa e Castro conduzia a trama de “Hipertensão”. “Cambalacho” teve Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri como par romântico principal, Natália do Valle como vilã e coadjuvantes marcantes como a Tina Pepper de Regina Casé, a Ana Machadão de Deborah Bloch e o Jean Pierre de Luiz Fernando Guimarães. Ney Latorraca e Marco Nanini deram show ao se revezar em vários papéis de “Um sonho a mais”, experiência que deve tê-los motivado a montar “O Mistério de Irmã Vap” no teatro. E ainda se via Nathália Timberg, Marieta Severo, Yara Amaral, Aracy Balabanian, José Lewgoy, Walmor Chagas, Renata Sorrah e Carlos Vereza em papéis importantes.
Não estou dizendo que os elencos de hoje são piores, nem fazendo vista grossa para a inflação de beldades inexpressivas que marcou as novelas nos anos 1980. Falo apenas de minha infância diante da TV. E agradeço a Paulo Autran e outros grandes por terem aceitado alguns papéis em telenovelas.
